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segunda-feira, 5 de novembro de 2012
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Do sul da França, caráter
Google Imagens
Durante muito tempo, o sul da França ficou conhecido por seu Vin
de Pays d'Oc, vinho de denominação regional, confiável e prazeroso, mesmo sendo
simples.
A região é um verdadeiro Eldorado vinícola. No Rhône meridional há
várias AOC (Appellation d'Origine Controlée), onde encontramos brancos e tintos
de caráter jovem e fresco de vinhedos mais altos, como Côtes du Luberon, Côtes
du Ventoux e Côteaux du Tricastin.
Na zona do Languedoc, solos xistosos se entremeiam com calcários e
arenitos, dando uma paleta incrível de "terroirs" - alguns costeiros
e calorosos, alguns sobre as montanhas, mais frescos. Todas as uvas
mediterrâneas são usadas (mourvèdre, syrah, grenache e carignan, entre outras),
mas a porcentagem de syrah aumenta.
Languedoc produz tintos firmes e produtores independentes se
aglomeram na região. Em Faugères, sobre puro xisto, há vinhos firmes, densos e
terrosos.
Os vinhos das AOC St-Chinian, dos xistos, ao norte, é
exuberantemente frutado, mais denso e longevo nos vinhedos da faixa calcária ao
sul.
Em Minervois o arenito domina, e seus vinhos são cada vez mais
sérios. Corbières tem vários microclimas e grande potencial para vinhos ricos,
carregados de calor e apimentados.
A AOC Fitou, a mais antiga, de 1948, é beneficiada pelas
expressões da uva grenache na parte mais montanhosa e da syrah com mourvèdre no
lado marítimo.
Os vinhos são para quem tem um espírito Indiana Jones. A
recompensa é enorme. São cheios de calor, aromas de ervas, toques vermutados e
costumam ter ótimos preços.
J.L Colombo La Violette Viogner (Vin de Pays d'Oc)
Aroma de erva-doce e mel. Boa estrutura, mas simples
Aroma de erva-doce e mel. Boa estrutura, mas simples
Vignerons du Mont Ventoux 2010 (Côtes du Ventoux)
Aroma de toffee e fruta cozida. Taninos firmes, mas leve, bom para comida
Aroma de toffee e fruta cozida. Taninos firmes, mas leve, bom para comida
Ch. Du Donjon G.Tradition 2010 (Minervois)
Perfumadíssimo. Licor de jaboticaba e incenso. Frutado, rico, final lembra café
Perfumadíssimo. Licor de jaboticaba e incenso. Frutado, rico, final lembra café
Domaine du Ministre 2006 (St.Chinian)
Ameixa preta, tabaco, flor, anis. Bem encorpado, vigoroso
Ameixa preta, tabaco, flor, anis. Bem encorpado, vigoroso
Por Alexandra Corvo
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Côt ou Malbec?
Malbec
Nenhum dos dois...ou os dois. Tanto
faz, são dois nomes da mesma uva. Quando pergunto para meus alunos aqui na
escola de onde vem a malbec eles não hesitam: Argentina.
Mas a história é bem outra.
A uva tem origem no sudoeste da França.
Até a crise da filoxera (pulgão que dizimou vinhedos no mundo todo no final do
século 19) chegar na região de Bordeaux, a malbec representava maior parte do
vinhedo plantado.
Com o replantio, adaptou-se mal aos
porta-enxertos da época e foi substituída na liderança pela Merlot.
Hoje, na França, aparece em corte em
várias denominações do sudoeste, mas sua expressão mais interessante é em
Cahors, onde seu uso é obrigatório em 70% dos vinhos.
Ali também é conhecida como auxerrois.
É capaz de gerar aromas de
pimenta-do-reino, couro, frutas pretas e, nos melhores casos, flores secas. Em
boca, são vinhos muito densos com uma estrutura de taninos mais marcados e
firmes.
Bem diferente de sua terra de adoção
contemporânea, a Argentina.
Aqui, no país vizinho, os vinhos feitos
com a malbec são muito exuberantes, com notas de frutas vermelhas em geleia,
violeta e notas achocolatadas. Costumam ter bom corpo, mas com taninos menos
evidentes. São vinhos mais cremosos.
O que explica a identificação da malbec
com a Argentina é que seu nome aparece no rótulo, evidenciando-a como principal
elemento de sabor. Na França isso é incomum.
A filosofia é que a origem do vinho é
que lhe dá o caráter e não apenas a uva. Diz-se: você não está tomando um
malbec, está tomando um Cahors.
Vale a pena prová-los comparando para
ver como a uva não é tão determinante, já que muda radicalmente quando se muda
de ambiente. Nenhum é melhor. São apenas diferentes.
Luigi
Bosca DOC Malbec 2009
Geleia de jaboticaba e chocolate. Boca cheia, ampla e macia
Geleia de jaboticaba e chocolate. Boca cheia, ampla e macia
Château
Pineraie 2008
Notas de vermute, folhas secas. Bem tânico e perfumado
Notas de vermute, folhas secas. Bem tânico e perfumado
Caitec
Malbec 2009
Simples, com notas de cereja, fácil e refrescante
Simples, com notas de cereja, fácil e refrescante
Por Alexandra Corvo
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Circunflexo Invertido
Vinho é geografia. Não que se precise saber as capitais, os pontos
cardeais e o índice demográfico dos países, como era a decoreba escolar. Mas,
em caso de pânico, basta abrir o mapa e muitas respostas estarão lá. Usei o
método quando fui provar os vinhos da Eslovênia (e da Croácia, que estarão na
próxima coluna). Pensei: o carvalho esloveno tem sido bem elogiado e utilizado
no mundo. Inúmeros produtores estão trocando os tonéis de carvalho americano
pelo esloveno. E ponto.
Divulgação
Sauvignon Blanc, Rebula e Pinot Noir
Acabava nessa frase
minha sabedoria sobre a região. Abri o mapa: bingo! Eis o país encostado nos
Alpes, fazendo fronteira com Itália e Áustria, dividindo climas com parte da
planície da Panônia e sob influência do gigantesco espelho d’água que é o Lago
Neusiedler, onde fica o Burgenland (de onde saem bons tintos e os espetaculares
botritizados austríacos, como os do Weingut Kracher). No caso dos vinhos
provados, da região de Goriska Brda, as brisas mornas do Adriático e o estilo
friulano, vizinho, são decisivos.
Também é importante
para sua climatologia a faixa de fronteira que compartilha com a Styria, a
chamada Toscana da Áustria. A Styria é famosa pelos Sauvignons Blancs
elegantes, minerais e sóbrios (e pelo uso de madeira nesses vinhos, coisas do
vinhateiro doidão Manfred Tement). Ou seja, nada de erudição estéril: a leitura
do atlas diz o que esperar dos vinhos. Tudo resolvido via mapa. O Atlas Mundial
do Vinho é o GPS do bebedor interessado.
Os três únicos
produtos eslovenos disponíveis no Brasil até agora são da Simcic (tem um acento
circunflexo invertido sobre os "cês" que não consegui reproduzir), o
que limita a avaliação dos vinhos eslovenos ao extremo sudoeste do país. Mas a
promessa é boa. E qual o Simcic de que mais gostei? Justamente um Sauvignon que
passa por carvalho (tonéis de 500 litros).
* * * * Sauvignon Blanc Selekcija 2008
Simcic
Contido e sério no nariz, tem aroma verdoso e um pouco de sílex. Na boca é
equilibrado, ótimo corpo, denso, elegante e surpreendente na sua mineralidade
* * * Pinot Noir 2008
Simcic
Tem tipicidade da casta, é delicado, mas com taninos um pouco marcados. Acidez
perfeita. Muito fino
* * * Rebula 2009
Simcic
Nariz picante e muito cítrico, de grapefruit, casca seca. Boca muito fresca,
ótima acidez, abre a sede
Por Luiz Horta
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Espumantes Ingleses? Que novidade!
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Em plena Vinitaly, um convite
tentador: uma degustação comparativa entre espumantes italianos e...
ingleses! Essa não dá para perder, então adio algumas visitas e vamos lá.
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A degustação foi preparada pela
jornalista Italiana Michèle Shah, escritora, promotora de eventos e colunista
em revistas internacionais, especializada no vinho italiano.
Michèle pesquisou a região e os
produtos e criou essa oportunidade única, uma das degustações programadas da
Vinitaly, que motivou uma grande platéia onde ninguém havia degustado os
espumantes ingleses antes.
SOBRE A REGIÃO
No passado já se tentou fazer vinho
na Inglaterra, os romanos ali implantaram vinhedos há 2000 anos! A região é bem
ao sul da ilha, e seu clima frio e chuvoso se mostrou obviamente inadequado.
Com as mudanças recentes de
temperatura, o sul da Inglaterra mostra hoje similaridades com o norte da
França, e se iniciou uma produção local de espumantes, que hoje já se mostra
amadurecida, mas tem muito caminho pela frente até concorrer com os espumantes
e de países com tradição nessa fascinante bebida.
A PRODUÇÃO
Atualmente (2012) existem 1.800
hectares de vinhedos, cultivados com as variedades Chardonnay, Pinot Noir e
Pinot Meunier. A produção atual é de 3 milhões de garrafas, devendo chegar a 5
milhões em 2015. O maior consumo é do mercado inglês, com principais
importadores na Escandinávia e Oriente.
A DEGUSTAÇÃO
Foram degustados ao todo 12
espumantes, 3 italianos do Trento, 3 italianos de Franciacorta (Lombardia) e 6
ingleses.
Villa Crespia Franciacorta Numero
Zero – Fratelli Muratori
Cremoso, mineral, seco, longo e
envolvente, com frutas maduras e notas de pedra morena.
Glasbond Estate Blanc des Blancs 2007
Chardonnay
Em sua segunda safra de produção, é
quase dourado, mostra maçã madura e desidratada, leveduras frescas e saborosas,
final frutado gordo muito bom. A acidez é alta (8,3) o que explica a dosagem
mais alta para equilibrar, mas o resultado é um pouquinho enjoativo, ficando
ainda um final sápido.
Ferrari Trento DOC
Aroma maduro, gordo, de frutas e
leveduras. Boca enxuta, com fruta quase passada, leve nota mineral (das
montanhas). Final longo e saboroso com médio frescor. Complexo, fresco e
convidativo. Devido ao aquecimento, a vinícola está plantando novos vinhedos em
locais mais altos para manter as características do terroir.
Guido Berlucchi Franciacorta
Cellarius Pas dosé 2006
Frutas carnudas (pêssego, damasco),
frescor equilibrado, média complexidade, notas picantes, evolução muito fina,
longo e agradável.
Chapel Down Pinot Noir / Chardonnay
2006
Aroma elegante de frutas brancas e
notas florais. Acidez média, base de leveduras, sabor evoluído com frutas
passadas e nota salina, final com leve toque picante de pimenta branca. Acidez
alta (8,5) e dosagem potente (12g). Um pouco pesado e enjoativo na conjunção
fruta passada / dosagem.
Denbee Estate English Sparkling Brut
2007
Pinot Noir 50%, Chardonnay 35%, Pinot
Meunier 15%
Aroma de leveduras tostadas e notas
vegetais. Evolui fresco, com notas vegetais, tostados, leve amargor. Muito
dosado (13 g), para equilibrar os sabores vegetais provavelmente devidos a
maturação incompleta das uvas. A vinícola está trabalhando em melhorias nos
vinhedos.
Balfour Brut Rosé 2008
Cor rosa-castanho leve. Aroma
estranho de queijo gorgonzola, provavelmente de fermentação malolática ocorrida
após engarrafado, fruto de inexperiência. Muito ácido, é gordo, com boa
estrutura, evolui com amargor e frutas vermelhas desidratadas.
Bridge View Pinot Noir / Pinot
Meunier
Aroma de leveduras maduras. Boca
potente, estrutura de uvas tintas, acidez volumosa. Frutas dominantes, sutil
levedura, final com leve amargor, pode cansar. O estilo sugere prensagem excessiva
das uvas.
Maso Martis 2006 - Trento – Pinot
Noir 70% Chardonnay 30%
Boa safra. Pinot Noir sem malolática,
Chardonnay fermentado e maturado em barrica (6 meses), com malolática.
Elegante, macio, amplo e generoso, frutas intensas, leveduras elegantes, final
cremoso e envolvente. Muito bom.
Balny Cuvée Rosé 2009 Pinot Noir
Aroma fino e elegante. Na boca é
equilibrado, com acidez gorda, jovial e fresco, algo dosado (10 g/l). Final com
leve amargor, elegante. Bem bom.
Altemasi Riserva Agrate 2004 – Trento
– Chardonnay 70% Pinot Noir 30%
60 meses de autólise. O ataque é
fresco, evolui com levedura bonita e frutas brancas maduras e pão branco. Nota
mineral, corpo gordo, final longo de fruta com amargor e leve sapidez.
Cà del Bosco Franciacorta 2004 – Chardonnay
55% Pinot Bianco 25% Pinot Noir 20%
Fruta ampla, boa acidez, nota
mineral. Evolui bonito, muito gastronômico, final de fruta branca sólida com
pedra mineral
CONCLUSÕES
Os espumantes italianos, como
esperado, mostraram maturidade, qualidade e finesse.
Os espumantes ingleses, devido ao
recente início de produção, apresentam diversas inconsistências e
desequilíbrios, além de alguns problemas.
A maioria mostra níveis altos de
dosagem (teor de açúcar resultante do licor de expedição), usado para equilibrar
a acidez elevada produzida pelas uvas (característica do terroir), o que aponta
para ajustes no manejo dos vinhedos. A presença de notas de imaturidade nas
uvas revela a dificuldade de completar a maturação fenólica das cascas, o que é
um problema grave de comportamento do clima local. Surgem ainda notas salinas,
típicas dos vinhedos próximos ao litoral, detalhe que deverá ser equacionado,
por ser imutável.
Como disse a Baronesa Philipinne de
Rothschild sobre a vinicultura, “Wine making is really quite a simple business.
Only the first 200 years are difficult.”
CARLOS ARRUDA-
academia do vinho
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Nova Zelândia se inspira na França para produzir ótimos vinhos
A uva Pinot Noir é, entre as
tintas, o ícone da Nova Zelândia. Variedade caprichosa que raramente se adapta
muito bem a outras regiões fora da Europa, especialmente da Borgonha, seu
terroir de origem, encontrou no país da Oceania clima e solo perfeitos. A
vinícola Schubert, instalada em Martinborough, no Sul da Ilha Norte, e a menor
das áreas vinícolas neozelandesas, é uma marca em ascensão e tem três rótulos
diferentes produzidos com esta casta (entre R$ 128 e R$ 248). Na hora de
escolher as videiras para povoar os seus campos, plantados a partir do final
dos anos 1990, Kai Schubert, dono da empresa, foi meticuloso: escolheu um clone
de Pommard e outro de Dijon, duas áreas distintas da Borgonha, que produzem
vinhos igualmente diferentes, ainda que com a mesma uva.
— O clone de Dijon tem mais músculos e taninos. É masculino. Enquanto o de
Pommard apresenta mais fruta, frescor e elegância. É mais delicado e feminino —
diz Kai.
Não falta personalidade aos vinhos da Nova Zelândia. Neste caso, e em muitos
outros, o caráter é nítida e assumidamente francês. Importados pela World Wine
(2422-4614), que acaba de inaugurar um quiosque no Fashion Mall, os rótulos
dessa vinícola são inspirados em certas regiões francesas. O Sauvignon Blanc
(R$ 108), por exemplo, segue a linhagem do Loire, enquanto o monumental Syrah
(R$ 248) tem a concentração, a força, a delicadeza e a explosão de frutas que
caracterizam os melhores vinhos do Rhône Norte.
— A brisa do oceano refresca os vinhedos, que assim ganham grande expressão de
aromas, ao mesmo tempo em que preservam a boa acidez, enquanto o clima seco do
verão, com dias quentes e noites frias, favorece o amadurecimento, com
características climáticas próximas da Europa — explica Kai. — Isso numa área
relativamente pequena, com diferentes topografias, o que permite diversos
microclimas, e naturalmente vinhos diferentes.
A França é quase sempre fonte de inspiração para os enólogos. Outro nome de
destaque da enologia neozelandesa, a Craggy Range, da Decanter
(www.decanter.com.br), acaba de firmar uma parceria com a Compagnie Vinicole
Baron Edmond de Rothschild, uma das mais famosas da França. O flerte com o país
já acontece há tempos. Entre os vinhos, há um Chardonnay no estilo Mersault e
outro inspirado em Chablis. E os Pinot Noir também se espelham na Borgonha, em
suas várias vertentes, enquanto há cortes que parecem Bordeaux e rótulos de
Syrah com a cara do Rhône Norte.
Por BRUNO AGOSTINI
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